sábado, 8 de outubro de 2011
A Vendedora de Fósforos ilumina e aquece
Extremamente sensível, destaca a forte relação entre a narradora e sua irmã, e nos surpreende com poesia nas situações mais cotidianas. Altas doses de sensibilidade aspergidas sobre personagens que vivem num ambiente que estimula a imaginação, ideal para o nascimento de centelhas criativas.
Só pra dar uma palhinha, tem um diálogo na página 50 (durante uma das mudanças residenciais da família) que nos leva a concluir que "tudo na vida é provisório, exceto a infância". Certeiro, né?
A história de quem conta a história conta
Um personagem condenado à morte tem sua pena comutada pertinho da hora derradeira. Em vez de morrer, é submetido a trabalhos forçados. Cumprida a pena, casa-se. Perde a mulher. Casa-se de novo, perde um filho de 3 anos. Como se não bastassem tantos baques e outras perdas que alongariam desnecessariamente a descrição de seus suplícios, ele sofre de epilepsia. Fazer o quê? Escrever, ora. E tornar-se um dos maiores escritores de todos os tempos.
Fiódor Dostoiévski viveu como um personagem de seus livros, sofreu na carne as dores que descreveu, e trouxe da vida real para as páginas alguns de seus mais marcantes personagens. Dmitri Karamázov, por exemplo, foi inspirado em Dmitri Ilinski (até o nome foi preservado), acusado de parricídio exatamente como acontece nos Irmãos Karamázov.
Se o livro já é brilhante por si só, com essas informações adicionais sobre o autor e suas fontes de inspiração, ele se torna irresistível.
É a força da história por trás da história. Quanto mais, melhor.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Se deixar uma brechinha pra censura...
DESPERTAR É PRECISO
Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma flor do nosso jardim e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Um Conto
Café.
Saiu de casa bem cedo. Consulta marcada, coração na mão, alma pesada. Será desta vez? Deus queira não seja. Não foi. Alívio, leveza, coração nas nuvens, alma lavada. Esperança de volta, alegria de volta, planos de volta. De volta pra casa, sem pressa, a pé. De repente, passeio. Merece um café, encorpado, cheiroso, não quer um qualquer, só aquele Café, com letra maiúscula, bem plantado, torrado, cuidado, das raras ocasiões especiais, duas vezes sorvido, antes, apenas. Que pena, cafeteria fechada, ainda. Cedo demais, fica pra outra. No caminho tem outras. Choveu, ventou, trovejou, molhou, se abrigou, bendita marquise. Estiou. Seguiu seu trajeto. Um novo café, alguns passos à frente, vontade aumentada, mas nada. Cheio demais. De onde vem tanta gente? Não quer esperar, já perdeu tanto tempo, a chuva, a marquise, as poças, a lama, enfim, tudo bem. Adiante tem outro, hoje em dia são tantos. Não valeu a pena. O café de adiante era fraco demais pra quem quer celebrar, tinha um outro na frente mais perto de casa, esse sim, à altura dos fatos, brindáveis, saudáveis. Passou por vitrines, distraiu-se com as modas, sorriu para o guarda, deu esmola ao pivete, esbarrou numa dona lotada de compras. Desculpe o atropelo. Sorriso amarelo, já ia passando, voltou pro café, mas pra quê? Tão perto de casa, melhor ir em frente, já viu tanta coisa, curtir seu cantinho também pode ter um bom gosto de festa.
Chegou em casa bem tarde. Cabelos já brancos, a pele enrugada, coração no chão, alma penada. Quem sabe um café? Melhor não abusar. Água no fogo, um chazinho e olhe lá.
Um Desconto
Circo.
O romance da mulher barbada com o engolidor de espadas despedaçou-se, quando ela se depiilou em particular e ele se engasgou em público. Péssimo para eles e para toda a comunidade, que já não tinha mais sobre o que fofocar. Mas nada comparado ao palhaço perdendo a graça. Aquilo sim foi triste, quase tanto quanto a mansidão repentina do leão, a anorexia do elefante, o tombo histórico do trapezista, ou a revelação dos truques de Merlin. Queda após queda, efeito dominó, parecia o fim do mundo. Restava apenas uma pequena esperança. Foi quando o anão começou a crescer que todos se renderam às evidências. Fazer o quê? É a vida.
domingo, 2 de outubro de 2011
O prazer de provocar
"Não faz mais sentido falar em vigilância (nem combatê-la, nem denunciá-la, o que não significa que ela não seja mais eficaz que nunca) numa sociedade tautológica, de autoexposição voluntária.
A transgressão foi anulada pela banalização do consentimento coletivo. É como se toda a sociedade de repente fizesse a passagem de que fala Freud, da atividade do voyeurismo para a passividade do exibicionismo." (Bernardo Carvalho)
Aprofunde-se o cruzamento dessas raízes psicológicas e encontraremos os decotes, as saias rodadas, o Big Brother, as revistas de celebridades e as janelas indiscretas, todos juntos cutucando imaginários, alimentando fantasias, emulando transgressões.
sábado, 1 de outubro de 2011
O prazer do percurso
Lendo matéria de Ivan Barroso, no Caderno Prosa e Verso do Globo, sobre "O Clube do Suicídio" de Robert Louis Stevenson, me chamou especial atenção o trecho em que ele afirma que "o autor nos vai cada vez mais preparando para um clímax que não se verifica, invertendo o procedimento das narrativas do gênero, de modo que a expectativa do que vai acontecer se torna mais importante do que o acontecimento em si".
Verificar que um autor desse calibre nos envia do século XIX um exemplo de narrativa baseada mais no percurso do que na chegada é um alívio. Acredito que, cada vez mais, as pessoas estão abertas a desfrutar a paisagem do caminho independente de para onde estejam indo. E que até preferem finais abertos às tradicionais histórias arrumadinhas que não lhes permitem imaginar desfechos, participar de alguma forma, abrir a cabeça para diversas possibilidades.
Não é de um cara qualquer que estamos falando. É do autor de "O Médico e o Monstro", que entende bem profundamente os mistérios e conflitos da alma humana.