sexta-feira, 15 de junho de 2012

SOBRENATURALIDADES POÉTICAS



No momento em que reflito sobre o espaço que a poesia ocupa em nossas vidas, passeio de bobeira pelo blog do José Castello, onde me deparo com a seguinte frase: A POESIA É A ÚNICA PROVA CONCRETA DA EXISTÊNCIA DO HOMEM.
Quem disse essa preciosidade foi um poeta guatemalteco já falecido, chamado Luís Cardoza y Aragon.
Não satisfeito em nos brindar com esse achado, Castello desenvolve o tema, afirmando que "a poesia nada deve a ninguém. A ciência tem suas teses e suas demonstrações. A religião, seus dogmas. A filosofia se ampara na armadura dos conceitos. Só a poesia não precisa de artefato algum para afirmar nossa existência." Outro achado.
Difícil acrescentar qualquer coisa a um raciocínio tão cristalino. O fato é que de repente me senti como quem, escavando despretensiosamente, descobre um sítio arqueológico. E nesse sítio encontra uma revelação milenar do naipe das previsões Maias, e aí fica bolado, com medo de ter ido fundo demais nessa história. Eu, hein!

DIRETO AO QUE INTERESSA

De que interessa ter Mário de Andrade numa exposição que trata de ecologia? De que interessa ter uma exposição ecológica chamada HUMANIDADE 2012 quando o mundo está economicamente mal das pernas? De que interessa ilustrar o texto deste post com uma foto de outro texto?
O raciocínio dos detentores do poder é o movido pelo interesse em mais poder. A mesma lógica se aplica aos detentores do dinheiro, e aos que, não detentores de nada, se avizinham de quem detém alguma coisa, só pra ver se pegam uma rebarba.
Mudar de atitude é o que sugere nosso Mário. Nem seria tão difícil assim, não fosse o tipo de atitude que ele sugere mudar: a interessada.
Do interesse a gente não escapa. Mesquinho ou nobre, interesse há de existir. Só que agora os interesses estão convergindo. Os mesquinhos, com medo de perder suas posses, começam a entender que é mais negócio se unir aos nobres, com coragem de lutar pelo futuro. Nada de muito especial, apenas o bom e velho interesse. Nada de heróico, apenas medo. Nada de sofisticado, apenas falta de opção.

Parece que finalmente estamos todos de acordo, ou quase. Que bom? Resta saber se ainda há tempo.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

ADEUS, RAY BRADBURY!

"Quando a morte ataca, você deve pular e agarrar o bote salva-vidas e correr para a sua máquina de escrever." Era assim que Ray Bradbury encarava o que de alguma forma poderia intimidá-lo. Dizia também: "Toda manhã, pulo da cama e piso num campo minado. O campo minado sou eu. Depois da explosão, passo o resto do dia juntando os pedaços."
Comecei a me ligar no seu trabalho há pouco tempo. E achei o cara surpreendentemente inspirador. Muito mais profundo do que jamais imaginaria ser um autor de ficção científica.
Com Ray aprendi a valorizar mais a poesia. Vejam só que ironia. Seu primeiro conselho para quem escreve é ler poesia diariamente, como um exercício para o espírito, como suplemento alimentar que nos ajuda a re-significar a vida e redimensionar as palavras. Aprendi também a olhar o futuro com outros olhos e a enxergar o ofício de escrever como algo que de repente ganha concretude. Foi ele que, ancorado no alicerce de seus livros, desenvolveu o conteúdo do Spaceship Earth, a famosa atração do Epcot Center. Foi ele quem enunciou que "os primeiros homens e mulheres desenharam sonhos de ficção científica nas paredes das cavernas."
Na palestra "Poetas do Consumo" que fiz mês passado na ABL, Ray Bradbury foi o autor mais citado, tamanha a impressão que me causou seu trabalho. A leitura de seu livro "O Zen e a Arte da Escrita" fez com que eu me tornasse seu fã. Hoje, ele partiu. Aos 91 anos. Com muita vida pela frente.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

POETAS DO CONSUMO

Poesia cabe em qualquer lugar. Até na propaganda, por que não?
Drummond chegou a escrever uma poesia sobre isso. Chama-se "Brinde ao Juízo Final". E olha que foi em 1940, quando a propaganda não era tão presente em nossas vidas, nem o juízo final era esse tema que os Maias tornaram tão corriqueiro.
Drummond, além de poeta, devia ser profeta.
Chamado pra fazer uma palestra amanhã na ABL, achei interessante juntar essas pontas. A plateia será de jovens. Vamos ver como reagem à química do marketing com o lírico. Se acharem estranho, ótimo. Já começa a ficar divertido.

sábado, 12 de maio de 2012

A pressa é inimiga da refeição, da reflexão e da retenção

A pressa é moderna. Tão atual que, no espaço de um clique, pode ficar antiga. As coisas passam muito rápido nos dias de hoje. Até a pressa tende a passar mais depressa do que se supõe, entrando por uma porta e saindo pela outra, sem nos dar tempo suficiente pra entender o porquê dessa pressa toda.
O fast-food já saiu de moda. Não dava pra mastigar, muito menos digerir direito. Parecido com o que vem acontecendo com nossa capacidade de reflexão e nossa possibilidade de assimilar o que vale a pena reter. Essa questão do conhecimento e do pensamento ainda não está tão clara para o cérebro quanto os prejuízos causados pelo fast-food estão para o estômago, mas daqui a pouquinho a ficha cai.
Como eu disse no início, é impressionante a rapidez com que tudo passa.

sábado, 14 de abril de 2012

O que agora é será então amanhã como agora era ser passado ontem

Frases retorcidas nos fazem refletir, e sorrir. A que usei no cabeçalho deste post é de James Joyce, através de seu Bloom, no labiríntico Ulisses.
Mas não são só os grandes intelectuais que as produzem. Gente simples e despretensiosa é craque em compor esses raciocínios engenhosos. "A pessoa é para o que nasce", por exemplo, surgiu de uma mulher humilde, deficiente visual, que estrelou um documentário de Roberto Berliner. Tão boa a frase que se tornou título do filme.
São achados que nos obrigam a fazer alguma busca mais profunda, forçam uma pausa, produzem luz. Mais comuns em poetas e escritores, naturalmente. O que não exclui a possibilidade de terem esses artesãos da palavra se inspirado no que é dito nas ruas.
Pois é. Quando li hoje algumas frases de Valter Hugo Mãe (já de pazes feitas com as maiúsculas) proferidas por seus personagens sempre ricos de percepções sobre a condição humana, senti que valia cutucar mais gente com elas. Selecionei duas bem bacanas, que passo agora pra vocês: "Perfeição é só outra palavra para o desumano" e "Ser feliz é ser o que se pode". Saboreiem!