domingo, 21 de abril de 2013

DAVID BOWIE ARE

Nunca fui admirador de David Bowie. Sempre desconfiei de que havia mais oportunismo do que autenticidade em suas atitudes. Mas confesso que passei a vê-lo de outra maneira a partir de "David Bowie is", exposição com título que se expande como só as grandes ideias conseguem. 
David Bowie is this, that, here, somebody else, hiding nothing, e por aí vai. Um mesmo compositor, cantor, ator, pintor, mímico, se desdobrando em múltiplos personagens. Um artista que retorna após 10 anos de absoluto silêncio, fazendo um barulho singularmente plural. Lá está ele,  num museu tradicional de Londres (tão tradicional que parece inadequado ao evento), ilustrando sua vida com altas luzes, cores, projeções e obviamente som. Até um pequeno detalhe, como o localizador de audio-guias que dispara o som pela simples aproximação do visitante, se encaixa como luva no conteúdo da exposição. Ponto para a Sennheiser, empresa responsável pela façanha sonora. Ponto para o Victoria and Albert Museum, que entra na pilha do tema pra afirmar que David Bowie is faster than the sound, em material impresso onde todos os envolvidos se promovem. Ponto para o mutante popstar que segue surpreendendo, e se afirma como elemento de convergência nesse mundo que, com a mesma velocidade que conecta, desliga.


quinta-feira, 11 de abril de 2013

E LÁ SE VAI O SABÁTICO.

Pena, muita pena.
O link abaixo leva à coluna que fala do fim de um grande suplemento literário. Tomo-lhe emprestadas as palavras.
Ficam mais pobres a cultura, o público e o Estadão.

O fim dos suplementos literários | Publishnews | Colunas

quarta-feira, 13 de março de 2013

FRANCISCO I. UM BOM COMEÇO.


Um Papa simpático, que sabe sorrir, e com atitude humilde. Nem parece argentino (rsss).
Brincadeiras à parte, gostei muito do novo líder da Igreja. Foi zebra, ninguém parecia esperar essa escolha, tanto que a praça do Vaticano recebeu com um perplexo quase-silêncio o anúncio do seu nome, mas entendo que era disso que a Igreja precisava: uma surpresa.
Francisco I tem carisma, tem história, tem credenciais. Ter sido professor de literatura conta muito a seu favor. Foi atacado duramente pela destemperada senhora Kirchner, o que também conta muito a seu favor. E escolheu o nome de quem quer fazer mudanças. Um jesuíta adotando o nome do santo que puxou a Igreja de volta a seus princípios originais no cenário super-complexo da Idade Média, sinaliza algo muito especial.
O primeiro Papa Francisco já vem automaticamente conceituado como contemporâneo, renovador, simples, jovial e ecológico. Que Deus o ajude a cumprir sua missão.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

RUMO AO PASSADO

Estética reveladora. A capa da cartilha petista que comemora 10 anos de poder tem muito em comum com manifestações políticas de outros tempos. O olhar discretamente inclinado para a direita de Lula, por exemplo, coincide com o de Fidel e de Stalin, assim como o indefectível bigode que no Lula de outras eras unia-se à barba tão característica de Fidel. As bandeiras agitadas pelo povo (?) e a silhueta do jovem erguendo o braço vitoriosamente combinam perfeitamente com o mood dos posters de Fidel e da Revolução Francesa. Só Dilma difere na versão brasileira - enfim uma exceção - e ela sorri o sorriso que Lula apenas ensaia, aparentemente sonhando com o dia em que voltará à presidência.







 Claro que não foi por acaso. Há uma falta de noção tão clamorosa no partido do atual Governo que beira o infantilismo. Julgam-se salvadores da pátria / reinventores da roda, apresentam-se como mitos, brincam de super-heróis, carimbam sua sequência de mandatos como "tempos gloriosos". Dá pra acreditar que isso está acontecendo em pleno século XXI?
Olhando as quatro imagens em conjunto, salvo um certo deslocamento da que se refere à Revolução Francesa, elas parecem produzidas na mesma época. Privilegiando o vermelho, que Stalin e Fidel traduziram num banho de sangue, revestem-se de um tom épico, autoritário e descaradamente demagógico.
A capa da cartilha do PT, portanto, cumpre a missão didática que lhe cabe: sinaliza retrocesso em cada detalhe. Seria perfeita como peça de humor, mas foi feita a sério. Como são feitas a sério várias afirmações em seu conteúdo que não se sustentam, informações mascaradas, e dados tão photoshopados quanto os rostos de seus protagonistas.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

ESBOÇOS PARA UM ANO SEM OSCAR



Jantando com amigos norte-americanos ligados ao Museu de Arte Contemporânea de Chicago, fui perguntado sobre a existência no Brasil de correntes arquitetônicas divergentes de Oscar Niemeyer. Como assim? A pergunta me pegou no contrapé. Parece tão unânime, esclareceu o "my friend", tudo o que é glorificado na arquitetura brasileira vindo da mesma cabeça? Havia admiração sincera em seu questionamento e, como todo bom questionamento, me fez refletir. Faltavam poucos dias para o final de 2012 e nossa unanimidade arquitetônica havia acabado de nos deixar. Perdemos uma referência-chave, logo agora que as referências parecem escassear tanto quanto o oxigênio e a água do planeta.
Durante o jantar, a conversa girou prioritariamente sobre arte brasileira. Os amigos tinham vindo até aqui só para apreciação artística, dividindo sua viagem em três etapas: Inhotim, São Paulo (com atenção especial à Bienal) e Rio de Janeiro. Esmiuçavam estilos, buscavam a alma de nossa criatividade. Foi uma refeição e tanto, onde junto com a comida mastigamos generosas porções de ideias e compartilhamos boas risadas.
Nos despedimos com votos de Feliz Ano Novo, eles voaram de volta pra casa, assim como voaram os diazinhos que faltavam pro Réveillon. O fim do mundo novamente virou piada, a centenária Canô nos deixou no Natal, como se só tivesse esperado a partida de Niemeyer para ganhar dele na corrida pelos 105 anos, enquanto Gilberto Gil e Stevie Wonder enchiam as areias de Copacabana com sua magia, deixando acesos os estopins do foguetório que aconteceria na semana seguinte, e 5, 4, 3, 2, 1... pow-pow-pow... cá estamos nós em pleno Ano da Serpente. Dizem que é um ano de mudança de pele, de fase, de perspectiva. Dizem um monte coisa, porque dizer sempre foi fácil, não custa nada etc. Mas ninguém se arrisca a indicar novas referências, a palpitar sobre quem vai cuidar das linhas sinuosas que nos aguardam pelo caminho.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

E O FIM DO MUNDO, HEIN?


O assunto não poderia estar mais batido, mas, perdoem, é agora ou nunca. Quando é que teremos um outro fim do mundo tão animado pra celebrar? A virada do milênio foi aquele fiasco, e na próxima oportunidade pode ser que a gente já tenha morrido de causas não-apocalípticas ou, em outras palavras, o mundo tenha acabado para nós (eus?) em versão "private", o que, convenhamos, é bem mais chique do que sair morrendo por aí no meio da massa ensandecida.
Em artigo publicado no Globo, dia 18/12, Arnaldo Jabor, destilando humor-pessimismo, faz previsões de que "teremos nostalgia de um presente que não sentimos e saudades de um futuro que não para de 'não' chegar". O passado, segundo ele, "será chamado de depreciação". Na sequência de um texto deliciosamente bem construído, fala-nos do terrorismo como hábito cotidiano, de campos de concentração cinco estrelas, do fim do amor romântico, da arte, da piedade...
Embora de visão bem mais otimista que o Jabor, adoro quando ele explode em broncas, porque seus estilhaços brilham e fazem pensar.
Estamos vivendo um período de grandes choques, disso ninguém duvida. De opiniões, de convicções, de poderes públicos, choques éticos, morais, religiosos, políticos, sociais, psicológicos, econômicos, ecológicos, térmicos. E a cada choque, ainda que a duras penas, vemos surgir alguma luz. Destróem-se os elementos colidentes para gerar novas energias. Nada de escombros. Apenas verdades aprimoradas, extraídas do embate, a que podemos chamar "evolução".
Nosso mundo é um jogo cheio de emoções, repleto de perigos, ameaças, vilões e heróis pra todos os gostos. Mas é um jogo, acima de tudo, educador, que, em vez do "game over", segue nos surpreendendo com mudanças para fases cada vez mais complexas, e nos ensinando a lidar com elas, e nos mostrando que somos capazes de realizações inimagináveis.
Vem aí um 2013 com problemas sem fim e conquistas idem. Que venha! Estamos prontos.

sábado, 1 de dezembro de 2012

UM PAÍS SE FAZ COM PILANTRAS E LIVROS



A senha usada pelos bebês de Rosemary para propina era "livros", segundo noticiado hoje pelos jornais. Muito significativo para a ex-secretária de um ex-presidente que sempre se vangloriou de sua escassez cultural, e fez questão de preservá-la, mantendo distância da leitura mesmo em tempos de notória ociosidade. Talvez essa característica do chefe tenha sido determinante para a escolha da senha. Ele nunca prestaria atenção a um email que negociasse a entrega de livros, deve ter pensado a ardilosa secretária (dou essa ideia de presente para os militantes que a essas horas estão elaborando os enredos que livrem nosso míope, distraído, multi-apunhalado-pelas-costas ex-supremo mandatário de mais um desfile de irregularidades ocorrido debaixo do seu nariz). Pelo que a polícia já apurou, nunca na história deste país tantos "livros"circularam nas esferas federais. Vai livro, vem parecer favorável. Vai livro, vem liberação disso e daquilo. E continuamos nós vendo surgirem, nas páginas da imprensa golpista amparada pelas elites do sei lá mais o quê, uma plêiade de personagens que desafia a criatividade de qualquer ficcionista.
Irônico ver essa revelação acontecendo quando a atual presidente, em sábia decisão, resolveu o debate dos royalties do petróleo e os vinculou à educação. Ufa! Nem só de mensalões e outras baixarias vive nossa política. Palmas pra Dona Dilma que, justiça seja feita, tem se esforçado bravamente para limpar a barra de seus "companheiros" e administrar os coquetéis molotov que deixaram em seu gabinete. Mas assusta imaginar estarem os ratos do poder, neste momento, sorrindo maquiavelicamente ante a possibilidade de encaixarem os "livros" de Rosemary na estante (ou seria gaveta?) dos livros de verdade, quem sabe criando o Ministério da Leitura, ou melhor, uma nova agência reguladora, parente da ANA e da ANAC, que, pra debochar bastante dos milhões de otários brasileiros que pagam fortunas em impostos, bem que poderia se chamar ANALFA.