Frases retorcidas nos fazem refletir, e sorrir. A que usei no cabeçalho deste post é de James Joyce, através de seu Bloom, no labiríntico Ulisses.
Mas não são só os grandes intelectuais que as produzem. Gente simples e despretensiosa é craque em compor esses raciocínios engenhosos. "A pessoa é para o que nasce", por exemplo, surgiu de uma mulher humilde, deficiente visual, que estrelou um documentário de Roberto Berliner. Tão boa a frase que se tornou título do filme.
São achados que nos obrigam a fazer alguma busca mais profunda, forçam uma pausa, produzem luz. Mais comuns em poetas e escritores, naturalmente. O que não exclui a possibilidade de terem esses artesãos da palavra se inspirado no que é dito nas ruas.
Pois é. Quando li hoje algumas frases de Valter Hugo Mãe (já de pazes feitas com as maiúsculas) proferidas por seus personagens sempre ricos de percepções sobre a condição humana, senti que valia cutucar mais gente com elas. Selecionei duas bem bacanas, que passo agora pra vocês: "Perfeição é só outra palavra para o desumano" e "Ser feliz é ser o que se pode". Saboreiem!
sábado, 14 de abril de 2012
quarta-feira, 28 de março de 2012
MEUS PREFERIDOS SÃO FRANCISCOS
Meu santo preferido está nas pautas mais importantes do planeta. Defensor da ecologia, desde quando esse nome nem existia. Sacudiu a Igreja de sua época, fundou uma ordem exemplar, mostrou ser capaz de revolucionar a própria vida de rico-mimado e fez com que a palavra "franciscano" significasse desapego aos bens materiais, além de batizar um estilo despojado de sandálias.
Meu compositor preferido, desde os tempos da ditadura militar, também é Francisco. Sujeito que melhor definiu a dor da saudade: "pior tormento, pior do que o esquecimento, pior do que se entrevar, dói como um barco que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais, é o revés de um parto, é arrumar o quarto do filho que já morreu, é assim como uma fisgada no membro que já perdi." Ufa! Sujeito que canta coisas tão poéticas que parece frequentar o dormitório das palavras, captando significados que só aos mais íntimos elas revelam.
Meu humorista preferido partiu há pouco. E levou com ele uma legião de personagens. Provocou um turbilhão de homenagens, descortinou inúmeros aprendizes, praticamente todos que seguem se dedicando ao humor no Brasil.
O Globo de hoje publicou um texto sério dele, falando de sua busca pelo menino que havia sido. Texto brilhante, comovente, de um artista que sabe perfeitamente de onde vem sua criatividade, que se supera e transborda em tudo o que decide fazer.
Chico de Assis, Chico Buarque, Chico Anysio. Todos ultrapassam seus rótulos.
Mais que santo, o de Assis é rebelde, atual, eternamente jovem. Mais que compositor, o Buarque é poeta (embora o negue), inquieto, escritor de mão cheia. Mais que humorista, o Anysio é autor, ator, compositor... Mais que tudo, os três são criadores e provocadores, cada um no seu quadrado. E como fizeram enormes seus quadrados, como desafiam o confinamento dos quatro lados, como os reinventam, deformam, reformam.
Meus preferidos nessas três áreas são gênios, são marcantes, são Chicos. Êta nomezinho danado!
Meu compositor preferido, desde os tempos da ditadura militar, também é Francisco. Sujeito que melhor definiu a dor da saudade: "pior tormento, pior do que o esquecimento, pior do que se entrevar, dói como um barco que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais, é o revés de um parto, é arrumar o quarto do filho que já morreu, é assim como uma fisgada no membro que já perdi." Ufa! Sujeito que canta coisas tão poéticas que parece frequentar o dormitório das palavras, captando significados que só aos mais íntimos elas revelam.
Meu humorista preferido partiu há pouco. E levou com ele uma legião de personagens. Provocou um turbilhão de homenagens, descortinou inúmeros aprendizes, praticamente todos que seguem se dedicando ao humor no Brasil.
O Globo de hoje publicou um texto sério dele, falando de sua busca pelo menino que havia sido. Texto brilhante, comovente, de um artista que sabe perfeitamente de onde vem sua criatividade, que se supera e transborda em tudo o que decide fazer.
Chico de Assis, Chico Buarque, Chico Anysio. Todos ultrapassam seus rótulos.
Mais que santo, o de Assis é rebelde, atual, eternamente jovem. Mais que compositor, o Buarque é poeta (embora o negue), inquieto, escritor de mão cheia. Mais que humorista, o Anysio é autor, ator, compositor... Mais que tudo, os três são criadores e provocadores, cada um no seu quadrado. E como fizeram enormes seus quadrados, como desafiam o confinamento dos quatro lados, como os reinventam, deformam, reformam.
Meus preferidos nessas três áreas são gênios, são marcantes, são Chicos. Êta nomezinho danado!
quinta-feira, 8 de março de 2012
PARA ENTENDER AS MULHERES, ESQUEÇA OS PSICANALISTAS. CONSULTE OS POETAS.
Drummond disse:
" Para entender uma mulher
é preciso mais que deitar-se com ela…
Há de se ter mais sonhos e cartas na mesa
que se possa prever nossa vã pretensão…
Para possuir uma mulher
é preciso mais do que fazê-la sentir-se em êxtase
numa cama, em uma seda, com toda viril possibilidade… Há de se conseguir
fazê-la sorrir antes do próximo encontro
Para conhecer uma mulher, mais que em seu orgasmo, tem de ser mais que
amante perfeito…
Há de se ter o jeito certo ao sair, e
fazer da saudade e das lembranças, todo sorriso…
- O potente, o amante, o homem viril, são homens bons… bons homens de
abraços e passos firmes…
bons homens pra se contar histórias… Há, porém, o homem certo, de todo
instante: O de depois!
Para conquistar uma mulher,
mais que ser este amante, há de se querer o amanhã,
e depois do amor um silêncio de cumplicidade…
e mostrar que o que se quis é menor do que o que não se deve perder.
É esperar amanhecer, e nem lembrar do relógio ou café… Há que ser mulher,
por um triz e, então, ser feliz!
Para amar uma mulher, mais que entendê-la,
mais que conhecê-la, mais que possuí-la,
é preciso honrar a obra de Deus, e merecer um sorriso escondido, e também
ser possuído e, ainda assim, também ser viril…
Para amar uma mulher, mais que tentar conquistá-la,
há de ser conquistado… todo tomado e, com um pouco de sorte, também ser
amado!”
Precisa dizer mais alguma coisa?
sábado, 3 de março de 2012
RETROFUTURISMO JÁ

Acho engraçada essa palavra, soa cabeçuda sem perder o bom-humor, tem um quê de cinismo e esnobação de antenados, embora seja razoavelmente antiga, criada por Lloyd Dunn em 1983. O fato é que, apesar de seus quase 30 anos, segue atualíssima.
Retrofuturismo é o que melhor define o caráter distópico, ambíguo e contraditório do nosso tempo. Ok, de todos os tempos, só que evidenciado pela intensidade e rapidez com que ocorre hoje, de acordo?
Incensar no presente a forma como o futuro era imaginado no passado é tornar profético o que a princípio só pretendia ser imaginativo, é colocar a imaginação no mais alto dos pedestais, de onde também nós adquirimos o direito de observar o amanhã, brincar de futuristas e, quem sabe, acertar alguns chutes sobre o que vem por aí.
Em seu "O Zen e a Arte da Escrita", Ray Bradbury, autor do clássico "Fahrenheit 451", nos lembra que os primeiros homens e mulheres desenharam ficção científica nas paredes das cavernas, e enfatiza que sem fantasia não há realidade, sem imaginação não há vontade, sem sonhos impossíveis não há soluções possíveis. Graças a ele, passei a encarar o gênero com olhos mais simpáticos, descobri que Steam Punk, Diesel Punk e Cyber Punk são mais punks (no melhor dos sentidos) do que parecem, que o Batman de Joel Schumacher pode andar de mãos dadas com o Metropolis de Fritz Lang e flertar com os cultuadores de Star Trek e Star Wars, enquanto visitam o Brazil de Terry Gilliam.Vi mais claramente a poesia de Blade Runner, a fantasia de Back to the Future (fácil esbarrar com Júlio Verne por ali), a filosofia de Matrix. Conclui que há espaço de sobra para emoção, nos chips, nos múltiplos gadgets, nos softwares, nos pendrives, nos hard-disks, e nas telas (que, desde o primeiro quadro do primeiro pintor a emoldurar seu trabalho, sempre tiveram esse nome), telas de todos os tamanhos, para todos os gostos, cada vez mais acessíveis, e sensíveis ao toque.
Há futuro, gente! Essa é a boa notícia. Há muito tempo que há. E por mais fantástico que pareça, ele continua fazendo algum sentido.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
A MEMÓRIA TEM FUTURO.
A frase título deste post é de Gonçalo M. Tavares, em seu livro Uma Viagem à Índia, o mesmo livro em que ele diz que "o inesperado não tem fórmula, e mesmo o passado tem coisas que ainda amanhã serão surpreendentes". O livro é recente (2010), dividido em cantos, narrado em forma de poema, tudo pra ser taxado de chato-antigo, não fosse ele uma epopeia tão vanguardista que se dá ao luxo de terminar com um gráfico sobre a melancolia contemporânea, fazendo lembrar os efeitos visuais na abertura de Matrix. Lusíadas pós-moderno, por que não?
Surpreende-nos tantas vezes a ousadia e contemporaneidade de obras criadas há um tempão, ou a possibilidade de transformá-las em algo inteiramente novo, do mesmo modo que somos pegos no contrapé por antigas ideias repentinamente alçadas ao patamar de hits da atualidade, como se ninguém se lembrasse de que existem há décadas, guardadas numa gaveta que só esperava por uma boa arrumação. De velho a vintage ou de ultrapassado a cool, estalam-se os dedos e pronto. A reciclagem é um fato indiscutível, inevitável e, acima de tudo, bem-vindo, nenhuma área escapa à sua órbita.
Só os idiotas não aprendem com a história, e atravessamos um momento em que a história cresce em relevância por nos oferecer o abraço confortante que a velocidade supersônica-megabytica insiste em negar. A segurança escapa pelos dedos, e só a reencontramos quando nos avizinhamos de territórios já visitados. Saudade é sentimento que só rola em relação ao que nos trouxe alguma felicidade, todo mundo sabe. Saudade até daquilo que não conhecemos tão bem, mas que nos devolve a um tempo em que ser feliz era - ou parecia ser - menos complicado. Daí filmes como O Artista e a Invenção de Hugo Cabret, revisitando e revalorizando os alicerces da sétima arte. Daí Paul McCartney gravando as músicas que antecederam e inspiraram os Beatles. Daí um grupo de jovens arrastando multidões no Carnaval carioca pra cantar e dançar com o Sargento Pimenta que eles não chegaram a vivenciar quando ainda era Sargeant Pepper. Daí as voltas e revoltas que esse mundo dá, e a coincidência de até na hora de escolher nossos artefatos tecnológicos estarmos ligadíssimos na mais essencial das perguntas: o quanto eles têm de memória?
Surpreende-nos tantas vezes a ousadia e contemporaneidade de obras criadas há um tempão, ou a possibilidade de transformá-las em algo inteiramente novo, do mesmo modo que somos pegos no contrapé por antigas ideias repentinamente alçadas ao patamar de hits da atualidade, como se ninguém se lembrasse de que existem há décadas, guardadas numa gaveta que só esperava por uma boa arrumação. De velho a vintage ou de ultrapassado a cool, estalam-se os dedos e pronto. A reciclagem é um fato indiscutível, inevitável e, acima de tudo, bem-vindo, nenhuma área escapa à sua órbita.
Só os idiotas não aprendem com a história, e atravessamos um momento em que a história cresce em relevância por nos oferecer o abraço confortante que a velocidade supersônica-megabytica insiste em negar. A segurança escapa pelos dedos, e só a reencontramos quando nos avizinhamos de territórios já visitados. Saudade é sentimento que só rola em relação ao que nos trouxe alguma felicidade, todo mundo sabe. Saudade até daquilo que não conhecemos tão bem, mas que nos devolve a um tempo em que ser feliz era - ou parecia ser - menos complicado. Daí filmes como O Artista e a Invenção de Hugo Cabret, revisitando e revalorizando os alicerces da sétima arte. Daí Paul McCartney gravando as músicas que antecederam e inspiraram os Beatles. Daí um grupo de jovens arrastando multidões no Carnaval carioca pra cantar e dançar com o Sargento Pimenta que eles não chegaram a vivenciar quando ainda era Sargeant Pepper. Daí as voltas e revoltas que esse mundo dá, e a coincidência de até na hora de escolher nossos artefatos tecnológicos estarmos ligadíssimos na mais essencial das perguntas: o quanto eles têm de memória?
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
A nova cara da música mundial

Parece ter mais do que seus apenas 23 anos. Soa como se tivesse muito mais que isso, de tão madura.
Adele arrasou ontem no Grammy, sem perder a timidez de iniciante. Não só ela, a festa como um todo foi um arraso. Desde Bruno Mars deixando claro que Elvis não morreu (nem Michael Jackson tampouco), até Sir Paul McCartney, anunciado com gaitinha e tudo por Stevie Wonder, e se apresentando tão despojadamente como só os gênios podem ser, numa Valentine com orquestra, Diana Krall ao piano e Joe Walsh ao violão. Ele, a lenda, multi-instrumentista, multi-talentoso, na singela posição crooner. Demais!
Uma festa de eclipsar Oscar. Onde o country mostrou que pode ser angelical quando entra em cena com Taylor Swift, e o rock dos Foo Fighters gritou seu protesto, fazendo apologia da imperfeição humana como detentora da emoção, em contraposição à assepsia tecnológica sonora que faz tudo ficar com jeito de centro cirúrgico.
É certo que o fato do evento coincidir com o dia em que Whitney Houston nos deixou, tornou a celebração mais profunda e comovente. Mas deu pra perceber que algo está mudando, finalmente para melhor. Que estamos resgatando valores (Tom Jobim também marcou presença) e questionando o superficial, inclusive debatendo a relativa pobreza da reprodução digital quando comparada à qualidade do vinil. Idas e vindas até encontrar o ponto.
E enquanto as coisas vão buscando seu devido lugar, seguimos "rolling in the deep" com a nova musa e, de alguma forma, "learning to walk again", como cantam os bravos fighters.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
PARA QUE SERVE O ARTISTA?

A arte do artista é a de provocar. A isso ele se dedica, orgulhoso, vaidoso, a provocar emoções, surpresas, reflexões, admiração. Se não fustiga nenhum sentimento, por que tanta luta? Se não consegue falar ainda que em silêncio, de que vale o discurso?
O artista, não o oportunista mas o vocacionado de verdade, tem prazer em andar na contramão, só para mostrar que existe via alternativa e tirar o respeitável público de suas confortáveis certezas.
O artista é preto no branco, deixando todas as demais cores por conta da imaginação que atiça. É um sujeito corajoso como Michel Hazanavicius, múltiplo como Jean Dujardin e magnético como Bérénice Bejo.
O artista é isso: um olhar oblíquo para o futuro através do bom e velho retrovisor.
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