Nada de medo, mas consciência. A situação política brasileira não é a mesma do Egito, como insinuam os oportunistas de um lado. Mas também não pode se enredar em manobras eleitoreiras, como pretendem os oportunistas de outros lados. Transformar a massa indignada em massa de manobra seria o pior desfecho possível para nosso bendito despertar cívico.
Direita e esquerda se tornaram palavras vazias, que variam de significado segundo a conveniência do usuário, por isso vou deixá-las de lado. Golpe, este sim, é o grito de alerta (compartilhado pelos que se dizem esquerdistas e direitistas). São muitos. Cada um tem seu golpe na cabeça: o velho golpe de infiltrar baderneiros pra deixar os manifestantes mal na foto, o golpe bolivariano de propor um plebiscito pra alegar que o executivo fez sua parte e poder se unir aos que apedrejam o legislativo, o golpe de estimular demandas pontuais multifacetadas que possam gerar inquietações, inseguranças e greves sucessivas... o golpe de desqualificar o grito das ruas, provocar o caos, inviabilizar o país. Vários golpes se engatilham, todos com as piores intenções, e cabe a nós identificá-los, desmoralizá-los e rejeitá-los, sob pena de jogar fora um momento histórico que dificilmente se repetirá.
Não, decididamente não somos o Egito. Mas o que não falta no Brasil é múmia. Maldições em cadeia (boa palavra essa, hein!), anos a fio a nos assombrar: Renan Calheiros, Henrique Alves, José Sarney, Paulo Maluf, José Dirceu, Fernando Collor... a lista é grande. Obras faraônicas, claro, pipocam por todos os lados, de estádios padrão Fifa a hidrelétricas padrão "ame-o ou deixe-o / anos 70", com custos invariavelmente acima do orçado. Esfinges? Quando olho pra esses seres meio gente-meio bicho, não sei porque me lembro de Dilma e Lula. Deve ser por oscilarem muito de um lado pro outro, tornando-se indefiníveis. Ou talvez por serem, no fundo, a mesma pessoa, obcecada pela eternização no poder. Por fim, o famoso "decifra-me ou te devoro" cai muito bem aqui, entre o povo e os soberanos da vez. Quem não decifrar a situação com inteligência, tende a ser devorado.
sexta-feira, 5 de julho de 2013
quinta-feira, 4 de julho de 2013
COPA É BOM, OLIMPÍADA É BOM.
Antes de colocar a culpa nos eventos, melhor colocar a cabeça no lugar. Ter Copa do Mundo e Olimpíadas no Brasil é maravilhoso. Atrai turistas, investimentos, obras, empregos, novas perspectivas para todos. Também atrai nosso olhar para as mazelas nacionais, atrai nosso espírito cívico, nossa revolta com a incompetência e a desonestidade dos que nos governam.
Copa do Mundo e Olimpíadas mexem com tudo. Se não fôssem elas, não enxergaríamos com tanta nitidez os contrastes entre estádios e serviços públicos, não teríamos a certeza de que dinheiro pra fazer grandes obras (quando há vontade política) existe, não teríamos o impulso necessário pra vomitar nossa indignação contra os que nos pilham com o inchaço da máquina pública, nos embromam com maquiagens contábeis e discursos requentados, nos chantageiam com migalhas oferecidas em troca de votos.
Quando alguém maldiz Copa e Olimpíadas, fico zangado. Benditos sejam esses eventos. Que aconteçam seguros, bonitos e festivos, como o mundo espera de tudo o que se faz no Brasil. É tolice não apoiá-los, boicotá-los, desperdiçar o sacrifício do plantio detonando tudo na hora da colheita. Assim como é estúpido não aproveitar o ensejo pra fazer uma faxina profunda na classe política, e obrigar os que há tantos anos nos ignoram a sair da zona de conforto, arregaçar as mangas, e nos dar a qualidade de vida que merecemos, minimanente compatível com a absurda carga de impostos que suportamos.
A bola está na marca do pênalti. Ano que vem tem Copa e eleição. Momento imperdível pra marcarmos um golaço na recepção dos que vêm nos visitar, dar um chute na bunda dos politiqueiros-mensaleiros-bandalheiros de plantão, e correr pro abraço com o alto astral que nos diferencia, cantando o Hino Nacional como nunca antes na história deste país.
segunda-feira, 1 de julho de 2013
SER PAI ESTÁ NOS DETALHES.
Quando Fred marcou o primeiro gol brasileiro contra a Espanha e as celebrações se concentravam na linha de frente, David Luiz abraçava Júlio César, como se o gol tivesse nascido de uma tabelinha entre eles. Sentimento de família, coisa que só se consegue quando um pai-Felipão está no comando.
Quando a seleção canarinho festeja a conquista do campeonato, junto com os craques, algumas crianças vibram. Uma delas, vestindo camisa 9, ergue os braços como se tivesse jogado. Está bem na frente de seu pai, Júlio César.
Nos dois romances que escrevi, é evidente a presença do pai, pro bem e pro mal. Conselheiro e devotado no caso de José Espínola, sombrio e culpado no caso de Douglas. Não por acaso.
Paternidade é um assunto prioritário em minha vida, inspirado pelos filhos e pelo pai maravilhoso que Deus me deu.
Certamente é isso que me faz focar em Júlio César, em vez de Neymar e Fred. Essa identificação com quem segura os ataques do adversário, protege, dá tranquilidade pra que o grupo avance.
Quando eu era pequeno, meu pai jogava futebol comigo. Mais tarde, eu joguei com minha filha e meu filho. Hoje, ir ao estádio com aquele garoto, que virou um rapagão, continua a me emocionar. Cantar o hino nacional até o fim, enchendo o peito de orgulho junto com ele, então, nem se fala.
Em meio a tantos temas graves debatidos nas ruas, parece pieguice boba. Pra mim, é um grande detalhe.
segunda-feira, 24 de junho de 2013
(Repassando do blog de Antonio Cícero) COMO ÍAMOS DIZENDO NAS RUAS...
É assim que começa.
Lei de Reforma do Congresso de 2011 (emenda à Constituição)PEC de iniciativa popular: Lei de Reforma do Congresso (proposta de emenda à Constituição Federal)
1. O congressista será assalariado somente durante o mandato. Não haverá ‘aposentadoria por tempo de parlamentar’, mas contará o prazo de mandato exercido para agregar ao seu tempo de serviço junto ao INSS referente à sua profissão civil.
2. O Congresso (congressistas e funcionários) contribui para o INSS. Toda a contribuição (passada, presente e futura) para o fundo atual de aposentadoria do Congresso passará para o regime do INSS imediatamente. Os senhores Congressistas participarão dos benefícios dentro do regime do INSS exatamente como todos outros brasileiros. O fundo de aposentadoria não pode ser usado para qualquer outra finalidade.
3. Os senhores congressistas e assessores devem pagar seus planos de aposentadoria, assim como todos os brasileiros.
4 Aos Congressistas fica vetado aumentar seus próprios salários e gratificações fora dos padrões do crescimento de salários da população em geral, no mesmo período.
5. O Congresso e seus agregados perdem seus atuais seguros de saúde pagos pelos contribuintes e passam a participar do mesmo sistema de saúde do povo brasileiro.
6. O Congresso deve igualmente cumprir todas as leis que impõe ao povo brasileiro, sem qualquer imunidade que não aquela referente à total liberdade de expressão quando na tribuna do Congresso.
7. Exercer um mandato no Congresso é uma honra, um privilégio e uma responsabilidade, não uma carreira. Parlamentares não devem servir em mais de duas legislaturas consecutivas.
8. É vetada a atividade de lobista ou de ‘consultor’ quando o objeto tiver qualquer laço com a causa pública.
“Se cada pessoa repassar esta mensagem para um mínimo de vinte pessoas, em três dias a maioria das pessoas no Brasil receberá esta mensagem. A hora para esta PEC - Proposta de Emenda Constitucional - é AGORA.
É ASSIM QUE VOCÊ PODE CONSERTAR O CONGRESSO.
Se você concorda com o exposto, REPASSE. Caso contrário, basta apagar e dormir sossegado.
Por favor, mantenha esta mensagem CIRCULANDO para que possamos ajudar a reformar o Brasil.
Lei de Reforma do Congresso de 2011 (emenda à Constituição)PEC de iniciativa popular: Lei de Reforma do Congresso (proposta de emenda à Constituição Federal)
1. O congressista será assalariado somente durante o mandato. Não haverá ‘aposentadoria por tempo de parlamentar’, mas contará o prazo de mandato exercido para agregar ao seu tempo de serviço junto ao INSS referente à sua profissão civil.
2. O Congresso (congressistas e funcionários) contribui para o INSS. Toda a contribuição (passada, presente e futura) para o fundo atual de aposentadoria do Congresso passará para o regime do INSS imediatamente. Os senhores Congressistas participarão dos benefícios dentro do regime do INSS exatamente como todos outros brasileiros. O fundo de aposentadoria não pode ser usado para qualquer outra finalidade.
3. Os senhores congressistas e assessores devem pagar seus planos de aposentadoria, assim como todos os brasileiros.
4 Aos Congressistas fica vetado aumentar seus próprios salários e gratificações fora dos padrões do crescimento de salários da população em geral, no mesmo período.
5. O Congresso e seus agregados perdem seus atuais seguros de saúde pagos pelos contribuintes e passam a participar do mesmo sistema de saúde do povo brasileiro.
6. O Congresso deve igualmente cumprir todas as leis que impõe ao povo brasileiro, sem qualquer imunidade que não aquela referente à total liberdade de expressão quando na tribuna do Congresso.
7. Exercer um mandato no Congresso é uma honra, um privilégio e uma responsabilidade, não uma carreira. Parlamentares não devem servir em mais de duas legislaturas consecutivas.
8. É vetada a atividade de lobista ou de ‘consultor’ quando o objeto tiver qualquer laço com a causa pública.
“Se cada pessoa repassar esta mensagem para um mínimo de vinte pessoas, em três dias a maioria das pessoas no Brasil receberá esta mensagem. A hora para esta PEC - Proposta de Emenda Constitucional - é AGORA.
É ASSIM QUE VOCÊ PODE CONSERTAR O CONGRESSO.
Se você concorda com o exposto, REPASSE. Caso contrário, basta apagar e dormir sossegado.
Por favor, mantenha esta mensagem CIRCULANDO para que possamos ajudar a reformar o Brasil.
domingo, 23 de junho de 2013
De repente, os posts viraram gente.
Na largada do movimento, uma faixa com jeito de abre-alas, se apresentava com a cara limpa que falta aos congressistas que votam em segredo: SOMOS A REDE SOCIAL.
"Como?", perguntam-se os donos do poder. "Compramos a UNE, os sindicatos, todos os que tradicionalmente provocam agitações, assim como compramos votos, apoios y otras cositas, a custa de tantos cargos, tantas boquinhas... e agora, esse monte de bocas protestando por aí? De onde vem isso?"
"Vem da web, aquela força que produz os abaixo-assinados que o Governo sistematicamente ignora, majestade. Vem da humilhação continuada, da indignação acumulada."
"Então coloquem depressa nosso exército de blogueiros pra espalhar boatos. Tentativa de golpe da direita, velhos do Restelo, qualquer coisa dessas!" "Mas são jovens." "Então, jovens do Restelo, que seja, ninguém leu Os Lusíadas mesmo. O importante é controlar essa onda de protestos antes que ela influencie as próximas eleições." "Lamento informar, mas é incontrolável."
Nascidas de combustão espontânea, as manifestações no Brasil mudaram radicalmente as regras do jogo. Não há líderes a cooptar e, como a pauta de reivindicações é aberta, fica difícil barganhar. Trapacear em paz, nunca mais.
Benditos os 20 centavos adiados de janeiro pra junho, como disfarce da crescente inflacionária. Bendita a crença dos políticos no futebol e no carnaval como cortinas de fumaça sempre disponíveis para a implementação tudo o que desagrada ao povo. Desta vez não funcionou. Mais do que ligados, estamos conectados.
Enquanto engatinha, a internet é vulnerável à difusão de mentiras e à semeadura de medos. Bobagens são ditas a todo instante. Mas ela aprende mais rápido a identificar falsidades, do que o mundo real a lidar com essa novidade. Tudo está sofrendo mudanças bruscas há algum tempo. Tudo está sendo revisto e rediscutido, desde a produção artístico-intelectual até os limites da privacidade. Chegou a hora de rediscutir a política, de passar o Brasil a limpo. Sem truques.
sábado, 15 de junho de 2013
Uma vaia pra acordar o Brasil.
Joseph Blatter tentou consertar, só piorou. Pediu respeito e fairplay. Ao público ou ao governo?
Vaias são constrangedoras e desrespeitosas, sim. Pegam mal para a presidente, para o país, para todos nós. Mas não se comparam com o grau de constrangimento e desrespeito que temos sofrido dia após dia, vítimas historicamente cordatas e silenciosas, finalmente indignadas com o desperdício absurdo de todas as oportunidades que os grandes eventos, o pré-sal, o cenário econômico mundial e todos os bons ventos possíveis colocaram em nossas mãos. Vítimas de serviços públicos cada vez maiores no custo e menores no benefício. Vítimas de estatais que consagram a incompetência, o cabide de emprego e a ganância, de decisões políticas inconsequentes, da corrosão moral, ética, patrimonial, dos mais variados tipos, conduzida com a cara mais deslavada por nossos governantes. Corrosão tripudiante, gritante, aguda. Tão aguda quanto as vaias que ecoaram na abertura da Copa das Confederações, para que o mundo inteiro ouvisse, e compreendesse que o Brasil está longe de ser essa maravilha que se diz por aí. Tão gritante quanto os protestos deflagrados pelos 20 centavos que faltavam pra esgotar nossa paciência. Ano que vem tem Copa, e tem eleição. Que o som saído das urnas seja ensurdecedor.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
PLATÔNICO. Minha pequena participação no livro de João Renha sobre Washington Olivetto.
Final dos anos 80. Lembro que era manhã, fazia sol e estávamos na fase
pós-resultado do Festival de Cannes, sábado ou domingo, quando todos relaxam
(exceto os estressados crônicos), preparando bagagens e espírito pra voltar ao
Brasil ou esticar viagem pela Europa. Éramos cerca de uma dúzia de brasileiros
recém-esbarrados na Croisette e decididos a tomar um café, Perrier ou
refrigerante, mais pelo pretexto pra bater um papo do que por real necessidade
de matar a sede ou jogar cafeína extra no sangue.
Ocupamos duas mesas no terraço do Carlton e adicionamos outras cadeiras ao redor, incrementando o ambiente
chique do hotel com um jeitão de boteco. Mais do que conversar, ríamos de
montão, e alto, numa época em que nem se sonhava que o Brasil chegaria à
invejável posição internacional que ostenta hoje. Não creio que tenham nos
percebido como latinos inconvenientes, talvez um pouco excêntricos, e
certamente muito divertidos. Brincando sem maiores pretensões, contagiamos a
solenidade clássica daquele lugar, e os frequentadores pareciam gratos por
isso.
Quem lê esse início de descrição pode imaginar que a palavra circulava
com fluidez entre nós, sendo distribuída em fatias de tempo equivalentes pelos
integrantes do grupo. Nada disso. Havia um personagem que concentrava as
atenções, transformando todos os demais em tietes coadjuvantes. Tudo o que ele
dizia, independente do fosse, se tornava mais interessante e mais engraçado, só
porque tinha sido dito por ele. Salvo honrosas exceções, apenas a voz dele era
ouvida, o que não significava nada além de sua natural capacidade de contar bem
as histórias de seu inesgotável repertório.
Na mesa vizinha, um grupo de senhoras turistas ria junto com a gente
mesmo sem entender nada de português, pura osmose. Quando me levantei pra ir ao
toilette, uma delas me abordou, perguntando se aquele homem que nos entretia
era um artista. Na verdade era. Mas preferi explicar da maneira mais racional,
prática e leiga que me ocorreu: “Não, senhora. Somos todos publicitários brasileiros,
ele é o mais famoso do país, e um dos mais premiados do mundo. Pra nós, é uma
espécie de popstar.”
Festivaleiro de primeira viagem, participar daquele momento fechava
minha semana na Côte D’Azur com chave de ouro. O sujeito era meu ídolo. Só o conhecia
de palco e júris, vendo-o passar o rodo em tudo que era troféu, medalha e
diploma. E logo na minha estreia, imagina só, eu havia assistido duas
categorias inteiras de filmes ao lado dele, com direito a troca de impressões,
informações de bastidores e coisas do gênero. Muita sorte começar daquele jeito.
Relembrando a cena agora, tomo um susto ao enxergar ali alguém que
parece não combinar com o universo publicitário. Refiro-me a Platão.
Calma!, não estou surtando. Raciocine comigo:
a) Platão era um grande mestre frequentemente cercado de seguidores
ávidos por alguma fração do seu conhecimento, certo? Bem parecido com o que
vivíamos ao redor daquela e sabe-se lá de quantas outras mesas ao longo da
carreira do Washington (É a primeira vez que o nome dele aparece neste texto. Obviamente
desnecessário, mas ajudou no ritmo da frase).
b) Platão desenvolveu a Teoria das Ideias. Sem pretensões acadêmicas, o
fenômeno W.O. no mercado publicitário brasileiro alterou significativamente a
vida dos profissionais de criação e abriu os olhos dos anunciantes para o valor
de nossas ideias. Se uma teoria a respeito não chegou a ser escrita, não tenho
dúvidas de que na prática a coisa aconteceu de forma tão convincente que
dispensou o blá-blá-blá teórico.
c) Platão e Washington, cada um a seu tempo e jeito, foram muito
próximos de Sócrates. A diferença, em prejuízo de Platão, é que o Sócrates dele
não teve nenhuma influência na histórica formulação da Democracia Corinthiana.
Ok, talvez tenha viajado demais. Na verdade, o principal motivo que me
fez embarcar nesse tema platônico foi algo bem menos cabeçudo do que a explicação
costurada nos três tópicos anteriores. Indo direto ao ponto: nunca trabalhei
com ele, sempre o admirei à distância e, mesmo correndo por fora e observando
de longe, aprendi um bocado com o cara. Simplinho assim.
Daquele evento no Carlton em diante, estive com o Washington em
diversas ocasiões, mas nunca cheguei a comentar o efeito Valisère que a
primeira risadaria olivettiana à francesa produziu em mim. Nossa permanência no
café do hotel não chegou a duas horas, mas foi mais do que suficiente. Como já
dizia Platão, “você pode descobrir mais
sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de conversa”.
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