quarta-feira, 16 de abril de 2014

TAPEADOS.


Obras dos aeroportos (que, segundo Dilma, "dão e sobram"), contratos escandalosos da Petrobras (que Dilma analisou e aprovou), Pnad do IBGE (que a querida ex-ministra de Dilma bombardeou), pesquisas furadas do IPEA (que Dilma comentou no twitter e o Brasil expandiu pra Venezuela), obras do PAC (prometidas em cascata e cumpridas a conta-gotas). Para onde se olha neste país só se vê tapeação. Somos mais de 200 milhões de tapeados, há 11 anos tratados como otários por discursos vazios, desculpas esfarrapadas, chantagem financeira contra os dependentes de favores públicos, aparelhamento ostensivo do Estado, multiplicação de ministérios, inchaço de despesas, loteamento de cargos, queixas de perseguição, peitos estufados, atitudes alopradas e punhos erguidos.
Foi preciso o presidente da Infraero usar a palavra exata pra que tudo ficasse claro. "Tapear as obras". Que poder de síntese! E depois tentar corrigir a gafe criando o verbo "etapear" (dividir em etapas). Que pérola do cinismo nacional!
Se Frank Underwood (protagonista de House of Cards) fosse um personagem vulgar em sua obssessão pelo poder, ele talvez cometesse erros dessa magnitude. Mas isso desqualificaria o seriado da Netflix. Ninguém acreditaria que um povo que se acha tão esperto seria capaz de cair em lorotas tão descaradas.

Roteirinho medíocre esse que estamos vivendo. 

(foto buscada na internet através do Google)

segunda-feira, 10 de março de 2014

ESTIVE NO FIM DO MUNDO E LEMBREI DE VOCÊ.


O fim do mundo, que todos esperavam acontecer em 2000, micou. A previsão dos Maias de que tudo acabaria em 2012 também micou. Impaciente com a incompetência apocalíptica do planeta, adotei a velha fórmula do "Maomé vai à montanha" e parti para os finalmente. Como já estava impossível qualquer deslocamento no Rio em dias comuns, preferi não vivenciar o caos carnavalesco de uma cidade esburacada e mijada, vítima de obras e blocos desgovernados. Fugi, sentindo um estranho orgulho de minha covardia.
Segundo dizem, o mundo acaba mais ou menos no farol ícone de Ushuaia, bem ali onde o vento faz a curva. Terrinha danada pra ventar e fazer frio.
Lá no extremo sul da Argentina, longe de qualquer agitação, soube da greve dos garis no Rio. É o fim do mundo, pensei. Logo agora que me afastei.
Imediatamente, meu pensamento viajou de volta. Comecei a repassar os recentes fiascos brasileiros, a comparar nossos aeroportos com os de nossos vizinhos (que, diga-se de passagem, estão enfrentando uma crise bem cascuda), a olhar o que restou de nossas companhias aéreas (se é que ainda merecem esse nome), a recordar as negociatas pré-eleitorais, a roubalheira generalizada, o deboche das autoridades contra tudo que pareça decente, a gradual demolição de nosso bom-humor, da educação, da cultura, da economia... como não enxerguei isso antes. Já acabou, gente. Nós é que, distraídos, perdemos a noção do tranco. Brasil - terra do samba, do futebol, do escracho e do apocalipse. Somos imbatíveis.
A boa notícia é que, depois do fim, a coisa não acaba. Ahan! Tem um recomeço. E um farol persistente querendo apontar algum caminho,  jogar luz em alguma direção.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

HUMOR, A SÉRIO.

                                                              (foto: sofavirtual.wordpress.com)    


Ouvi Robert McKee dizer que humor é "the angry art". Incomodou. Rir é tão instintivo e purificador que resisti em aceitar a ideia.
Semana passada coloquei essa questão num painel que assisti, composto por importantes autores do humor brasileiro. Todos concordaram com McKee, e um deles ainda acrescentou que "não existe humor do bem". Esta última observação me perturbou mais do que a frase do McKee.
Marcelo Madureira, o famoso Casseta e Planeta, participava desse painel e soltou várias frases marcantes. Selecionei duas: "Humorista é o artista kamikaze" e "Humor é uma leitura distorcida da realidade". Ôpa! Heroísmo combinado com função social, a coisa começava a ganhar consistência.
Pensei em Chaplin, na crítica de Tempos Modernos, no desafio de O Grande Ditador. Como foi brilhante a diluição de sua raiva naquele riso fantasiado de ingênuo. Só um gênio como ele para transformar a figura mais aterrorizante do século XX em algo ridículo.
Humor é tarefa de revoltados inteligentes, que esbofeteiam com a piada, e nos alertam para os absurdos da vida. Conclui. E fiquei imaginando Nicolás Maduro, Kim Jong-un (o Anthony Garotinho da Coreia), Evo Morales, Cristina Kirchner, Dilma Roussef e sua côrte de figuras cômicas, onde fulgura o presidente do PT do Rio com seu emblemático nome, Washington Quaquá. Só rindo mesmo.
Aí vem o Jaguar, entrevistado pelo Globo deste domingo, e diz que "Humor não serve mais pra nada". E o Antonio Prata, entrevistado pelo Rascunho, dizendo que "Todo comediante é antes de tudo um covarde. Você não tem coragem de enfrentar o mundo de frente, então enfrenta de lado, que é como o humor se relaciona com a matéria."
Entre os altos e baixos conceitos, lembro-me do mal-estar causado por alguns vídeos do Porta dos Fundos, das polêmicas, dos tantos ofendidos furiosos que adoram rosnar contra as gargalhadas. Vejo a cara tristonha do Gregório Duvivier, e enxergo nessa coletânea de opiniões / imagens o choque necessário pra que se faça humor de verdade. Necessitamos dessa fricção pra que aconteça a descarga elétrica do riso. Necessitamos da rebeldia, da autodepreciação, da contradição, do deboche, pra que caiam as fichas, e as máscaras.
Poeira baixada, encontro uma antiquíssima definição de Lévi-Strauss: "Riso é um curto-circuito do entendimento". Faz-se a luz. Sorrio.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A ESTRANHA QUÍMICA DAS RECENTES DOAÇÕES PELA INTERNET A CONDENADOS PELA JUSTIÇA


Na premiadíssima série "Breaking Bad", o pacato professor de química Walter White descobre um jeito ilegal de ganhar muito dinheiro. Ele se encanta com a grana que jorra fácil e se convence de que seus crimes têm uma justificativa nobre: preservar o futuro econômico da família.
Dado relevante: o estopim da mudança de comportamento do personagem é um diagnóstico de câncer.
O filho de Walter, na inocente presunção de que seu pai não tem dinheiro para custear o tratamento da doença, lança uma campanha de doações pela internet para angariar fundos. Fato que o advogado de Walter, tremendo picareta contratado para ajudá-lo a se manter fora do alcance da lei, enxerga como oportunidade para lavar a bufunfa gerada pelo crime. Ele convoca especialistas em internet para a criação de doadores laranjas (conhecidos como robôs), que passam a fazer doações fictícias do dinheiro do próprio Walter, e assim viabilizam uma origem declarável para sua fortuna.
Obviamente não estou acusando ninguém de nada. Apenas achei interessante a coincidência entre um seriado de ficção e a forma como um personagem político de baixa popularidade, mas expert em arrecadar fundos, consegue levantar em tempo record 1 milhão de reais em generosas doações, sem nem ao menos um cancerzinho para emocionar seus colaboradores. Nem a Pastoral da Criança, nem o Greenpeace conseguem tamanha performance. Impressionante, né não?

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

HAY ROLEZITO?


Primeiro movimento: centenas de mariachis andando pelo shopping, tocando e cantando a plenos pulmões.
Os corredores ficaram apertados e o resultado acústico era de perfurar tímpanos blindados. Entulhadas nas lojas, as pessoas não conseguiam comprar. Os lojistas se assustaram, as instalações não comportavam tanta gente e tanto barulho ao mesmo tempo. Intranquilidade geral.
Expulsos os mariachis e declarada a indesejabilidade de sua presença massiva, a Embaixada do México logo se manifestou, considerando que seu país estava sendo vítima de discriminação, o que seria imediatamente denunciado à ONU.
À indignação diplomática juntaram-se os Sindicatos dos Cantores Folclóricos de Língua Espanhola e dos Fabricantes de Sombreros que, em frente aos centros de compras, passaram a gritar palavras de ordem, invocar a memória de Emiliano Zapata, e chorar dramaticamente, numa performance digna dos novelões produzidos em sua terra.
Representantes do Governo fizeram questão de prestar solidariedade aos cantores rejeitados, alguns deixando bem claro que achavam absurda a proibição da cantoria, e frisando que aquilo era coisa de elitistas, autoritários, direitistas, reacionários e... (na falta de outros adjetivos nos manuais cubanos que consultavam) racistas.
Quando os praticantes de lucha apareceram para engrossar os protestos com suas famosas máscaras e malhas justíssimas, encontraram-se com centenas de tenores que, envergando casacas e suando em bicas, cantavam "O Sole Mio" a capela. Temerosos por criar novo incidente, agora com a Itália, advogados dos shoppings acharam melhor consultar os organismos internacionais antes de pleitear qualquer outra proibição. Infeliz decisão.
O breve intervalo de consulta foi suficiente para que multidões de monges budistas e dançarinos cossacos se mobilizassem pelas redes sociais para fazer seus passeios pelos shoppings, todos apoiados por veementes oportunistas de variadas origens.

Sem conseguir vender, as lojas foram cedendo espaço a comitês eleitorais e áreas de concentração destinadas a múltiplos rolezantes. Foi aí que a procissão de Santo Apolinário tomou corpo na praça de alimentação, com milhares de fiéis empunhando velas, e um andor enganchado no balcão do McDonald's. Só assim começou a ser considerada a hipótese de que alguma coisa estava fora do lugar.

(foto buscada no Google)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

POR QUE OS BRASILEIROS PREFEREM VIAJAR PARA O EXTERIOR?

*


Primeiro, porque são inteligentes.
Se podem pagar menos por hotéis e serviços infinitamente superiores, por que não?
Se podem concentrar suas compras em países que oferecem maior qualidade por preços impressionantemente mais baratos, por que não?
Brasileiros preferem viajar para o exterior, porque viajar no Brasil é um tormento, por terra ou pelo ar. Nossas estradas, nossos aeroportos e nossas companhias aéreas são sofríveis. Nosso Governo nos sufoca com impostos que desestimulam o espírito empreendedor, tornam praticamente impossível conciliar bom trabalho com preço razoável, punem quem se atreve a gerar empregos com encargos insuportáveis. Não há como resistir à tentação de escapar para cenários menos hostis.
Brasileiros viajam e gastam muito no exterior porque são expulsos daqui pela insaciabilidade de um Governo que, tendo as bênçãos da natureza para atrair turistas de todo o mundo pra cá, insiste em solidificar a fama de destino caro. Tão caro que nem nós aguentamos, e tão vocacionado para a opressão que o Governo prefere aumentar as taxas de quem viaja pra fora, em vez de aliviar as taxas de quem viaja pra dentro.
Como li num artigo, não me lembro de quem, só compra em Miami quem não é suficientemente rico pra fazer compras no Brasil.

* (foto buscada no Google, autoria desconhecida)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

ALGUMA COISA SE QUEBROU EM 2013.


Quebrou-se o silêncio do povo brasileiro em relação ao descaso dos poderes públicos. Quebraram-se vitrines, prédios públicos, ônibus, e com eles a nobreza inicial das manifestações. Quebrou-se um pacto de civilidade que nos fez retroceder na história. Quebrou-se o respeito entre os poderes públicos, com o Executivo tentando transferir todas as mazelas do mundo para o Legislativo e principalmente o Judiciário. Além, é claro, da imprensa.
Quebrou o pau por todo lado. Entre torcedores (criminosos) de futebol, como nunca havíamos visto. Entre atletas de um negócio chamado UFC, que nos remete de volta ao Coliseu.
2013 foi um ano de quebradeira. Nem o Eike Batista escapou.
De positivo, só a quebra do velho tabu de que político no Brasil nunca vai pra cadeia.
Fica um triste saldo de violência, a ser compensado ano que vem.
Que em 2014 a gente junte os cacos e saiba recomeçar, com o pé direito, sem cotoveladas, pedradas ou caneladas.