sexta-feira, 23 de novembro de 2018

O GRANDE TRUQUE DO DIABO É SE DISFARÇAR DE DEUS

De repente, Deus entrou com força total na cena política, mas não consigo reconhecê-lo.
Aprendi desde cedo que Deus é Amor (existe definição mais exata do que essa?), mas o deus que vejo adorado por um número surpreendente de pessoas é guiado pelo ódio.
Aprendi que religião existe para re-ligar, aproximar as pessoas entre si reforçando os valores humanistas fundamentais, e o que vejo agora são atitudes separatistas, egoístas, desonestas e desalmadas.
O Deus que a quem dirijo minhas orações é pautado pela compaixão, nos estimula a compreender, dialogar, iluminar, evoluir, manifestar afeto, zelar pelos mais necessitados, abraçar os direitos humanos, abrir o coração e a mente, proteger a natureza. Não aceitaria ser cabo eleitoral de nenhum político, nem se faria representar por bancadas no Congresso. Não aconselharia ninguém a andar armado, não optaria por mais violência para combater a violência, não hostilizaria minorias, nem assediaria professores, nem usaria a mentira para se promover. Não permitiria que usassem seu santo nome para empreender qualquer tipo de vingança ou sufocar o livre arbítrio.
Por que o Todo-Poderoso se rebaixaria a explorar a ignorância ou escalaria em seu time pessoas que rosnam, ameaçam e se locupletam às custas de inocentes fiéis?
O problema do surto religioso que tomou conta do cenário nacional não é a religião. É a indução de pessoas emocionalmente vulneráveis a trocar de Deus, adorando seu principal opositor, que é muito competente na arte dos disfarces. É a substituição do Altíssimo pelo baixíssimo, daquele que dizia "a paz esteja convosco" por um espírito perverso que semeia a guerra.
A política já estragou muita coisa neste país, não podemos permitir que ela estrague até a imagem de Deus.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

VOLTAS OLÍMPICAS


Precisou acontecer uma olimpíada no Rio pra eu voltar a escrever neste blog. Não pra falar de esporte, nem desta ou daquela disputa, mas da vida, das voltas que ela dá.
Imagine a Rio 2016 como uma série de tv, dessas bem feitas que nos surpreendem a cada episódio, dessas em que protagonistas apaixonantes de repente são derrubados, sem piedade. Quantas histórias desfilam diante de nós, despertando admiração e reflexão.
Desde a celebrada escolha da cidade-sede, passando por milhões de turbulências, intrigas, dúvidas e roubalheiras, entrando na espetacular festa de abertura e desembocando na paixão dos atletas que, diferentemente dos políticos, nos representam. De uma hora pra outra, vemos cair as favoritíssimas meninas do futebol e do vôlei, enquanto, como numa daquelas caixas-surpresa, saltam pro pódio um atleta com vara e um boxer, e duas duplas de vôlei de praia avançam pra disputar o ouro. Dor de um lado, alegria do outro. Aniversários e velórios, pra ninguém esquecer que tudo é relativo, efêmero. No meio disso tudo, parte João Havelange, exatamente durante o evento que ajudou a trazer pra cá, alegando que seria o maior presente para a comemoração do seu centenário. Se morresse em outra época, teria mais espaço na imprensa. Difícil competir com os dramas e glórias dos campeões.
Como acredito que as histórias são o melhor treinamento para a vida, vejo histórias e vida passando pelas arenas olímpicas, com todos os seus mistérios, injustiças, e heróis. Vejo os vilanizados do futebol masculino recuperando o status de esperança de redenção. Vejo o choro e o sorriso misturados ao suor, tudo oscilante, mandando as certezas pro espaço, pra ninguém se esquecer de que somos todos pequenos e ao mesmo tempo gigantes.

*Foto buscada no Google

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O QUE DIRIA A PRESIDENTE PIXULECA EM SEU PRONUNCIAMENTO NO DIA DA PÁTRIA?


"Quero fazer aqui minha saudação ao 7. Esse número escolhido por D. Pedro I para o dia do seu grito de independência num mês que não é nove (senão seria novembro), mas legitimamente sete, de setembro. E por que sete? Porque é o número cabalístico do que a bíblia considera como inumerável, escolhido por Walt Disney pra quantidade de anões em volta da menina Branca de Neve, pelo charmoso agente secreto britânico 007, pela Igreja com os famosos sete pecados capitais (que meu governo, dando continuidade ao trabalho do presidente Pixuleco, tem combatido sem tréguas nessa capital do Brasil, tão cheia de capitalismo selvagem, civilizado e de todos os tipos capitalismo que o homem sapiens inventou). Enfim, saudar o 7, que não por simples coincidência é o percentual de minha aprovação neste momento em que grandes estadistas como eu, o companheiro Maduro da Venezuela, e tantos outros líderes como o querido bolivi, bolivario... vocês sabem, aquele da Bolívia, o Morales, temos enfrentado os efeitos da crise internacional que injustamente nos atinge.
Sete por cento de setembro é um dia - e um índice - inesquecível para uma mulher como eu, que não tem nada a temer, mas morre de medo do Temer, esse vice que indiscutivelmente é uma temeridade. E quem disser que 7 é número de mentiroso só pode estar querendo furar meu balão. A esses eu respondo como D. Pedro às margens do Ipiranga. Se ele ergueu a espada, eu ergo a mandioca. Se ele gritou "independência ou morte", eu grito: "coração valente", "pátria educadora". D. Pedro teve um slogan só, eu tenho dois. E, se meus assessores me ajudarem, hei de chegar a sete slogans, a inflação há de ultrapassar os 7%, o dólar talvez chegue a 7 reais, e o PT há de continuar pintando o sete por muitos e muitos anos."

sábado, 5 de setembro de 2015

TODOS NO MESMO BARCO.


No início do nazismo, o mundo ficou do mesmo jeito: observando o nascimento da loucura como algo distante que não chegaria a afetar nossas vidas, talvez uma oportunidade pra se ganhar algum dinheiro com aquele baixinho teatral com seu bigode ridículo, quem sabe até vendendo-lhe matéria prima para a fabricação de armas.


Os que sofriam eram minorias das quais não fazíamos parte.
Como agora: briga de religiosos extremistas, gente que vive em permanente conflito numa região de onde só nos interessa o petróleo. Gente que deve ser mantida à distância, porque traz consigo um rastro de encrenca.


No início do nazismo, não havia a Organização das Nações Unidas.
Ainda bem que agora temos esse organismo internacional que nos protege de equívocos como aquele que levou o mundo à tragédia da Segunda Grande Guerra. A mesma ONU que intervém quando algum interesse econômico dos países que a comandam é ameaçado, e que se faz de morta quando seres humanos são expulsos de suas casas, violentados, torturados e brutalmente assassinados por um grupo insano que quer se tornar Estado e impor sua visão de fé a todos os habitantes do planeta.


No início do nazismo, o mundo tinha a desculpa de desconhecer as proporções que a desumanidade pode atingir. Os campos de extermínio não apareciam na mídia como os vídeos das orgulhosas execuções do "estado islâmico". As pessoas não faziam perguntas como: Quem está financiando esses caras? De onde vêm tantas armas? A quem interessa que a selvageria continue crescendo?
E afinal, onde está a ONU?
No início do nazismo, quase ninguém notava que o problema tomava forma num país de língua e tecido social à primeira vista incompreensíveis. Nascia lá, mas já estava caindo no nosso colo.
Não era um problema deles, era de toda a humanidade.

terça-feira, 7 de abril de 2015

VOCÊ, SEUS AMIGOS, SUA RELIGIÃO, SUAS MARCAS E OUTRAS HISTÓRIAS.

No fundo, é o que conta. Tem razão quem tem a melhor história. É ouvido, compreendido, gostado e lembrado quem tem a melhor história. Mas com tantas histórias pipocando por todo lado, por que alguém se interessaria pela sua?
Do boca a boca até o clique a clique, o que realmente mudou?
Pra se localizar, tem que viajar de Paris a Ouro Preto, de Nova York a Londres, passando por Itu e Varginha. Pra entrar no clima, tem que visitar a Disney vestindo Diesel, teclar um Apple, andar com Johnnie Walker, correr de Nike, acelerar seu Fiat, GM, Ford, Volks, BMW, Mercedes ou quem sabe uma Harley, voar com Red Bull, relaxar de Havaianas, assistir uns seriados HBO pela Sky, tomar uma Coca-Cola, e rezar, porque a força espiritual vem funcionando magnificamente, pelos séculos dos séculos, amém.
Era uma vez o storytelling. Daí pra frente, só lendo o livro.


Saiba mais aqui:


À venda, entre outros, nos endereços abaixo:


www.livrariacultura.com.br

www.travessa.com.br/travessa‎

www.amazon.com.br

books.google.com





segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

TOTALMENTE A FAVOR DE SER CONTRA.

Todo mundo tem um lado esquerdo, um lado direito, e uma cabeça em posição equidistante das extremidades. Dentro da cabeça tem um cérebro, cada vez menos usado. Fora dela tem um rosto, que serve para aparecer em selfies.
De uns tempos pra cá, a humanidade resolveu avançar para trás e adquirimos expertise instantâneo para emitir opiniões incontestáveis a respeito de qualquer assunto. Questões religiosas que remontam ao Antigo Testamento passaram a determinar os grandes litígios planetários, pequenas charges de humor puseram a Europa em rota de colisão com o mundo árabe, questões políticas se transformaram em brigas de foice entre cegos, chutamos o balde das conquistas civilizatórias, reduzimos a limites bizarros nossa capacidade de debater sem bater. Como as reservas hidrícas de São Paulo e Rio, ressecamos, e estamos nos lixando para a perspectiva de morrer de sede daqui a pouco.
Escrevo este texto no dia seguinte à execução de um brasileiro na Indonésia, e observei a estranha dificuldade das pessoas serem contra a pena de morte imposta a esse homem, sem que isso signifique serem favoráveis ao tráfico de drogas que ele praticava, ou ao uso político oportunista desse fato pelo governo brasileiro, tão ávido por alguma questão que desvie o foco das intermináveis lambanças protagonizadas por seus representantes.
Isso quando ainda convalescíamos do brutal ataque ao Charlie Hebdo, cujo horror praticamente obrigou o mundo a gostar do trabalho que as vítimas produziam. E ainda juntávamos os caquinhos das eleições, que reduziram o Brasil a um racha entre petralhas e coxinhas.
Bastou a tecnologia possibilitar a manifestação de todos através das redes sociais para que se instalasse um estéril maniqueísmo worldwide a nos impossibilitar o exercício da inteligência.

Por isso, depois de meio ano sem postar nada em meu blog, aqui estou para esclarecer, a quem interessar possa, que:

- Sou flamenguista, mas fico revoltado e envergonhado quando a torcida do meu time se comporta mal.

- Sou brasileiro, mas critico meus compatriotas que falam alto, sujam a rua, não respeitam a sinalização, votam irresponsavelmente, pagam mico quando viajam, e acham que tudo se resolve com jeitinho.

- Sou contra qualquer violência, abomino o terrorismo e defendo ferrenhamente a liberdade de expressão, mas não vejo graça no Charlie Hebdo que, pra mim, pratica um humor tolo, agressivo e de extremo mau gosto.

- Sou contra as drogas e detesto traficantes, mas antes disso respeito a vida, o que me faz encarar a pena de morte simplesmente como barbárie institucionalizada.

- Sou católico, reconheço um monte de falhas na Igreja, curto muitíssimo o Papa Francisco, respeito todas as religiões. E não consigo admitir que os extremistas islâmicos que combatem a educação feminina, atacam escolas, sequestram adolescentes, degolam reféns, matam gente a torto e a direito pelo mundo afora, sejam religiosos de verdade. Porque a selvageria deles contradiz os princípios básicos da própria religiosidade.

- Uso "mas" em minhas tomadas de posição, não para disfarçar meu pertencimento ao lado oposto dos que espumam contra essa singela adversativa. Uso porque o "mas" ilumina outros aspectos que os obcecados se recusam a enxergar. Uso porque gosto e porque quero.

Trocando em miúdos, não sou tão diferente assim da maioria das pessoas. Apenas não gosto da sensação de ser intimidado por tsunamis que se julgam detentoras da verdade. E considero fundamental que todas as portas e janelas permaneçam abertas, para que o oxigênio circule e para que possamos gritar quando nos der na telha: "Sim, eu posso não gostar".

sábado, 26 de julho de 2014

O CARA QUE EMBOLACHOU O JORNALISTA.

O cara que embolachou o jornalista saiu de peito estufado. Orgulhoso por defender a verdade que lhe foi revelada por uma galera ponta firme, da sua idade, que não se deixa influenciar pela mídia nem por ninguém que pense de outro jeito. Uma galera que, como ele, não estava no mundo quando os militares calavam a imprensa com agressões bem mais intimidadoras, nem viu o quanto a imprensa foi responsável pela difusão das informações que vitaminaram a sociedade na luta contra a ditadura, na conquista do direito de votar, no restabelecimento da democracia.
O cara que embolachou o jornalista não faz ideia do quanto se parece com o general/presidente que disse: "Quem não quiser ser livre, eu prendo e arrebento". Não imagina que os ditadores dos anos de chumbo também achavam que faziam um grande bem ao Brasil, que estavam nos ensinando a ser um povo melhor, na marra, debaixo de porrada.

O cara que embolachou o jornalista, depois do seu espetáculo de truculência, foi tomar chopp com o cara do coquetel molotov, o cara que quebra ônibus, o que dispara rojão na cabeça de cinegrafista, o que arranca postes de sinalização e o que saqueia lojas, pra fazerem um balanço de sua contribuição para os destinos do país. 
Não chegaram a conclusão nenhuma. Também pra que que serve esse negócio de objetivo, conclusão? Coisa do passado, papo reacionário.
Basta celebrar a embriaguez do momento e aparecer de montão na mídia. Aliás, compartilha esse link aí, mano, que a galera vai curtir geral!

quarta-feira, 9 de julho de 2014

NÃO APRENDER COM A DERROTA É PERDER DUAS VEZES.



Cada gol da Alemanha, uma fisgada. Dor física mesmo. Foi assim que me senti, usando imediatamente o humor como analgésico (tratamento que recomendo enfaticamente). Fiz piadas sobre a situação, me emocionei com o choro dos torcedores, especialmente as crianças. Achei importante mastigar cada pedacinho do desabamento futebolístico que estava testemunhando (não dá pra evitar a analogia com o viaduto que, bem pertinho do Mineirão, havia provocado uma tragédia de verdade poucos dias antes). No day after, li os jornais com suas manchetes catastróficas, degustei cada artigo, confrontando o impacto da véspera com visões variadas da imprensa nacional e internacional. Chamaria isso de vivenciar o luto, se "luto" não fosse uma palavra forte demais para o fato.
Não tínhamos time, qualquer um enxergava isso. Só que era bom acreditar no milagre da superação, como num enredo de filmes "sessão da tarde". Se a Costa Rica fez o que fez, por que não?
Mas temos, isso sim, um povo campeoníssimo. Um povo que gosta tanto de sonhar que é capaz de encarar qualquer rebordosa. Um povo que salvou a Copa, cobrindo com seu alto astral e capacidade de acolhimento todas as falhas estruturais do evento. Um povo que canta o hino nacional a capela como nenhum outro, e não bota panos quentes em sua seleção quando ela dá vexame, aplaudindo o adversário com lágrimas nos olhos, sabendo perder o jogo sem perder a dignidade.
Somos todos Neymar, claro que sim. Tomamos uma joelhada na coluna, mas daqui a pouco estaremos recuperados, mais maduros e calejados, prontos pra colhermos vitórias no futebol e nos campos que realmente importam. Vivendo e aprendendo a jogar, dizia a música da Ellis. É tóis, Brasil!

*Foto buscada no Google

quinta-feira, 19 de junho de 2014

MISTURANDO AS BOLAS


O pênalti que todo mundo não viu contra a Croácia só não existiu por causa da imprensa. Falaram tanto, olha no que deu: outros pênaltis inventados já deixaram de ser marcados. O que acaba provocando empates como o do México e pode arruinar a Copa das Copas, onde tudo está funcionando maravilhosamente, a começar pela cerimônia de abertura, que não teve a menor interferência da vaiada "presidenta", mas precisa ser defendida por ensandecidos petistas, permanentemente perseguidos pela - argh!- elite branca. A essa classe desprezível pertencem os de pele clara que fazem grandes jogadas, com as honrosas exceções de José Dirceu, Paulo Maluf e David Luiz, ou melhor dizendo, todos os que estudaram, se formaram em alguma coisa, têm o péssimo hábito de ler livros, ou melhor dizendo, qualquer babaca que cobra o cumprimento de promessas ou discorda do impecável governo a que estamos submetidos. Culpa da imprensa, sempre ela, que critica o Fred e perturba o Felipão com perguntas inconvenientes, além, claro, do Joaquim Barbosa, aquele branquelo azedo cheio de diplomas, que apitou o jogo do mensalão até abandonar o campo por sucessivas caneladas dos heróis da Papuda e sua furiosa bancada advocatícia. Logo um Barbosa, sobrenome estrangeiro que nos remete ao goleiro do maracanaço, atrapalhando a performance de dois típicos afrodescendentes-mestiços-cafusos-deselitizados com sobrenomes tão brazucas como Scolari e Rousseff.

                                                                                    (imagem buscada no Google)

Por essas e outras, o técnico do escrete canarinho deveria conceder entrevistas somente a blogueiros aliados, que defenderiam o bom nome da seleção a qualquer custo, ainda que superfaturado.
Justiça seja feita aos esforços de Neymar e Daniel Alves em sua alourada tentativa de aproximação com os golpistas arianos, tentando recuperá-los da cegueira estratégica e estética em que se encontram. E registre-se a participação de baluartes da lisura parlamentar como Renan Calheiros no seu esforço hercúleo (e até cirúrgico) pela maior capilaridade do partidaço no estado a que chegamos. Graças a personagens como esses, seguimos firmes na luta contra as retrancas do 4-5-1, e a maldita herança neoliberal deixada por Santos Dumont, que até hoje nos faz passar vexame com os aeroportos fulecos onde pousam as máquinas voadoras que esse desocupado inventou.
Louve-se a carra amarrada dos que só querem ser louvados, os juízes que só marcam a nosso favor, os braços agitados pedindo falta, as vitórias conseguidas no grito.
Brasil, rumo ao hexa! Salve a eleição!


domingo, 1 de junho de 2014

TELAS E TEXTOS.


É surreal o efeito de uma tela sobre o público. Hipnotiza. Claro, quando bem utilizada.
Desde as primeiras pinturas de que se tem notícia, ninguém olha pra uma tela pelo fato de ser uma tela, mas pelo que ela contém. Conteúdo é só o que importa.
Vale pra tela que se cobre de tinta, pra que recebe projeções de fotogramas sequenciais, pra que transmite sinais de emissoras, ou imagens da internet, pendurada na parede, apoiada na mesa, no colo, na palma da mão. Sem conteúdo que valha a pena, nenhuma tela serve pra nada.
Quando uma nova tela aparece, as demais logo são ameaçadas de desaparecer. Mas a história já provou que isso é uma grande tolice.
Taí a televisão se reinventando depois de anos patinando na obviedade. De repente, nos surpreende com produções que parecem coisa de cinema. E são. Uma nova dramaturgia, mais atrevida e provocativa, começa a ganhar o espaço antes reservado para as fórmulas popularescas que levavam a audiência à zona de conforto dos textos tatibitates, personagens previsíveis e finais felizes. Uma zona de conforto que, seguindo a sina do confortável, só leva à atrofia.
Pesquisas, que antes aprisionavam excessivamente a criatividade na tv, começaram a pesar mais na indústria cinematográfica, e não deu outra: a telona, líder inicial da ousadia, encheu-se de fórmulas, tornou-se óbvia, começou a perder o brilho e, consequentemente, a capacidade de reter talentos (roteiristas, diretores, atores).
Enfim, vivemos a Era de Ouro da Televisão, redescobrindo um veículo que começava a se curvar à caretice. Fenômeno gradual, longe de ser amplo, mas já bastante perceptível. E o filé da tv se infiltra nos computadores, tablets, smartphones, para influenciar nova retomada do cinema mais adiante, mantendo o círculo virtuoso das telas, onde, independente das tecnologias e formas, tudo gira, como sempre, em torno do conteúdo. Aliás, com um crescente número de produções inspiradas em obras literárias. Lembra do bom e velho livro? Pois é, continua revolucionando.

(Imagem extraída de tresmigalhas.blogspot.com)

sexta-feira, 9 de maio de 2014

MINISTUITÉRIO.


- Só pra completar os 40.
- Nunca! Vão fazer a piada do Ali Babá.
- Mas a função existe e é uma das poucas que funcionam.
- Você acha que a tropa da internet pode se magoar?
- Não quero nem pensar nisso.
- Talvez se déssemos uma função mais cultural pra encorpar o discurso de que nos preocupamos com educação...
- Gosto disso.
- Quem sabe reduzir toda a obra de Machado de Assis a tuítes pra que os jovens possam prestar atenção e entender o que ele escreveu?
- Grande ideia! Brilhante!
- Combinado. Na intimidade é ministuitério, mas oficialmente é só uma multissecretaria poliparticipativa de voluntários da base. Não podemos correr o risco da piada dos 40 ladrões em véspera de eleição.
- E como pagamos pelo serviço?
- No melhor estilo Pasadena-Eletrobras-A Melhor Copa de Todos os Tempos-em 2015 a gente conversa. De graça.
- Graça!!!!
- Foster.
- Entendi.
- Só mais uma perguntinha: Quem é esse Machado de Assis que está por trás da tal obra?

quarta-feira, 16 de abril de 2014

TAPEADOS.


Obras dos aeroportos (que, segundo Dilma, "dão e sobram"), contratos escandalosos da Petrobras (que Dilma analisou e aprovou), Pnad do IBGE (que a querida ex-ministra de Dilma bombardeou), pesquisas furadas do IPEA (que Dilma comentou no twitter e o Brasil expandiu pra Venezuela), obras do PAC (prometidas em cascata e cumpridas a conta-gotas). Para onde se olha neste país só se vê tapeação. Somos mais de 200 milhões de tapeados, há 11 anos tratados como otários por discursos vazios, desculpas esfarrapadas, chantagem financeira contra os dependentes de favores públicos, aparelhamento ostensivo do Estado, multiplicação de ministérios, inchaço de despesas, loteamento de cargos, queixas de perseguição, peitos estufados, atitudes alopradas e punhos erguidos.
Foi preciso o presidente da Infraero usar a palavra exata pra que tudo ficasse claro. "Tapear as obras". Que poder de síntese! E depois tentar corrigir a gafe criando o verbo "etapear" (dividir em etapas). Que pérola do cinismo nacional!
Se Frank Underwood (protagonista de House of Cards) fosse um personagem vulgar em sua obssessão pelo poder, ele talvez cometesse erros dessa magnitude. Mas isso desqualificaria o seriado da Netflix. Ninguém acreditaria que um povo que se acha tão esperto seria capaz de cair em lorotas tão descaradas.

Roteirinho medíocre esse que estamos vivendo. 

(foto buscada na internet através do Google)

segunda-feira, 10 de março de 2014

ESTIVE NO FIM DO MUNDO E LEMBREI DE VOCÊ.


O fim do mundo, que todos esperavam acontecer em 2000, micou. A previsão dos Maias de que tudo acabaria em 2012 também micou. Impaciente com a incompetência apocalíptica do planeta, adotei a velha fórmula do "Maomé vai à montanha" e parti para os finalmente. Como já estava impossível qualquer deslocamento no Rio em dias comuns, preferi não vivenciar o caos carnavalesco de uma cidade esburacada e mijada, vítima de obras e blocos desgovernados. Fugi, sentindo um estranho orgulho de minha covardia.
Segundo dizem, o mundo acaba mais ou menos no farol ícone de Ushuaia, bem ali onde o vento faz a curva. Terrinha danada pra ventar e fazer frio.
Lá no extremo sul da Argentina, longe de qualquer agitação, soube da greve dos garis no Rio. É o fim do mundo, pensei. Logo agora que me afastei.
Imediatamente, meu pensamento viajou de volta. Comecei a repassar os recentes fiascos brasileiros, a comparar nossos aeroportos com os de nossos vizinhos (que, diga-se de passagem, estão enfrentando uma crise bem cascuda), a olhar o que restou de nossas companhias aéreas (se é que ainda merecem esse nome), a recordar as negociatas pré-eleitorais, a roubalheira generalizada, o deboche das autoridades contra tudo que pareça decente, a gradual demolição de nosso bom-humor, da educação, da cultura, da economia... como não enxerguei isso antes. Já acabou, gente. Nós é que, distraídos, perdemos a noção do tranco. Brasil - terra do samba, do futebol, do escracho e do apocalipse. Somos imbatíveis.
A boa notícia é que, depois do fim, a coisa não acaba. Ahan! Tem um recomeço. E um farol persistente querendo apontar algum caminho,  jogar luz em alguma direção.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

HUMOR, A SÉRIO.

                                                              (foto: sofavirtual.wordpress.com)    


Ouvi Robert McKee dizer que humor é "the angry art". Incomodou. Rir é tão instintivo e purificador que resisti em aceitar a ideia.
Semana passada coloquei essa questão num painel que assisti, composto por importantes autores do humor brasileiro. Todos concordaram com McKee, e um deles ainda acrescentou que "não existe humor do bem". Esta última observação me perturbou mais do que a frase do McKee.
Marcelo Madureira, o famoso Casseta e Planeta, participava desse painel e soltou várias frases marcantes. Selecionei duas: "Humorista é o artista kamikaze" e "Humor é uma leitura distorcida da realidade". Ôpa! Heroísmo combinado com função social, a coisa começava a ganhar consistência.
Pensei em Chaplin, na crítica de Tempos Modernos, no desafio de O Grande Ditador. Como foi brilhante a diluição de sua raiva naquele riso fantasiado de ingênuo. Só um gênio como ele para transformar a figura mais aterrorizante do século XX em algo ridículo.
Humor é tarefa de revoltados inteligentes, que esbofeteiam com a piada, e nos alertam para os absurdos da vida. Conclui. E fiquei imaginando Nicolás Maduro, Kim Jong-un (o Anthony Garotinho da Coreia), Evo Morales, Cristina Kirchner, Dilma Roussef e sua côrte de figuras cômicas, onde fulgura o presidente do PT do Rio com seu emblemático nome, Washington Quaquá. Só rindo mesmo.
Aí vem o Jaguar, entrevistado pelo Globo deste domingo, e diz que "Humor não serve mais pra nada". E o Antonio Prata, entrevistado pelo Rascunho, dizendo que "Todo comediante é antes de tudo um covarde. Você não tem coragem de enfrentar o mundo de frente, então enfrenta de lado, que é como o humor se relaciona com a matéria."
Entre os altos e baixos conceitos, lembro-me do mal-estar causado por alguns vídeos do Porta dos Fundos, das polêmicas, dos tantos ofendidos furiosos que adoram rosnar contra as gargalhadas. Vejo a cara tristonha do Gregório Duvivier, e enxergo nessa coletânea de opiniões / imagens o choque necessário pra que se faça humor de verdade. Necessitamos dessa fricção pra que aconteça a descarga elétrica do riso. Necessitamos da rebeldia, da autodepreciação, da contradição, do deboche, pra que caiam as fichas, e as máscaras.
Poeira baixada, encontro uma antiquíssima definição de Lévi-Strauss: "Riso é um curto-circuito do entendimento". Faz-se a luz. Sorrio.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A ESTRANHA QUÍMICA DAS RECENTES DOAÇÕES PELA INTERNET A CONDENADOS PELA JUSTIÇA


Na premiadíssima série "Breaking Bad", o pacato professor de química Walter White descobre um jeito ilegal de ganhar muito dinheiro. Ele se encanta com a grana que jorra fácil e se convence de que seus crimes têm uma justificativa nobre: preservar o futuro econômico da família.
Dado relevante: o estopim da mudança de comportamento do personagem é um diagnóstico de câncer.
O filho de Walter, na inocente presunção de que seu pai não tem dinheiro para custear o tratamento da doença, lança uma campanha de doações pela internet para angariar fundos. Fato que o advogado de Walter, tremendo picareta contratado para ajudá-lo a se manter fora do alcance da lei, enxerga como oportunidade para lavar a bufunfa gerada pelo crime. Ele convoca especialistas em internet para a criação de doadores laranjas (conhecidos como robôs), que passam a fazer doações fictícias do dinheiro do próprio Walter, e assim viabilizam uma origem declarável para sua fortuna.
Obviamente não estou acusando ninguém de nada. Apenas achei interessante a coincidência entre um seriado de ficção e a forma como um personagem político de baixa popularidade, mas expert em arrecadar fundos, consegue levantar em tempo record 1 milhão de reais em generosas doações, sem nem ao menos um cancerzinho para emocionar seus colaboradores. Nem a Pastoral da Criança, nem o Greenpeace conseguem tamanha performance. Impressionante, né não?

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

HAY ROLEZITO?


Primeiro movimento: centenas de mariachis andando pelo shopping, tocando e cantando a plenos pulmões.
Os corredores ficaram apertados e o resultado acústico era de perfurar tímpanos blindados. Entulhadas nas lojas, as pessoas não conseguiam comprar. Os lojistas se assustaram, as instalações não comportavam tanta gente e tanto barulho ao mesmo tempo. Intranquilidade geral.
Expulsos os mariachis e declarada a indesejabilidade de sua presença massiva, a Embaixada do México logo se manifestou, considerando que seu país estava sendo vítima de discriminação, o que seria imediatamente denunciado à ONU.
À indignação diplomática juntaram-se os Sindicatos dos Cantores Folclóricos de Língua Espanhola e dos Fabricantes de Sombreros que, em frente aos centros de compras, passaram a gritar palavras de ordem, invocar a memória de Emiliano Zapata, e chorar dramaticamente, numa performance digna dos novelões produzidos em sua terra.
Representantes do Governo fizeram questão de prestar solidariedade aos cantores rejeitados, alguns deixando bem claro que achavam absurda a proibição da cantoria, e frisando que aquilo era coisa de elitistas, autoritários, direitistas, reacionários e... (na falta de outros adjetivos nos manuais cubanos que consultavam) racistas.
Quando os praticantes de lucha apareceram para engrossar os protestos com suas famosas máscaras e malhas justíssimas, encontraram-se com centenas de tenores que, envergando casacas e suando em bicas, cantavam "O Sole Mio" a capela. Temerosos por criar novo incidente, agora com a Itália, advogados dos shoppings acharam melhor consultar os organismos internacionais antes de pleitear qualquer outra proibição. Infeliz decisão.
O breve intervalo de consulta foi suficiente para que multidões de monges budistas e dançarinos cossacos se mobilizassem pelas redes sociais para fazer seus passeios pelos shoppings, todos apoiados por veementes oportunistas de variadas origens.

Sem conseguir vender, as lojas foram cedendo espaço a comitês eleitorais e áreas de concentração destinadas a múltiplos rolezantes. Foi aí que a procissão de Santo Apolinário tomou corpo na praça de alimentação, com milhares de fiéis empunhando velas, e um andor enganchado no balcão do McDonald's. Só assim começou a ser considerada a hipótese de que alguma coisa estava fora do lugar.

(foto buscada no Google)